Ultimas leituras: homens e personalidades

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Entre as ultimas leituras que fiz, reparei em três homens protagonistas bem diferentes entre si nas personalidades e temperamentos.  Adianto que, de todos eles, apenas um conseguiu ganhar meu afeto genuíno: o Crisóstomo, personagem central do romance O filho de mil homens, do escritor, poeta da vida, futuro nobel da literatura, Valter Hugo Mãe. Se você nunca leu nada de Valter Hugo Mãe, recomendo que leia. Não existe arrependimento quando se fala dele, eu juro.

Nesse romance, o quinto do escritor, Crisóstomo é um homem solitário que deseja muito ter um filho e, nessa jornada, vivenciamos com ele e outros personagens da história as várias nuances e manifestações do amor. De maneira sutil e tocante, o autor nos faz sentir o amor nas suas muitas complexidades: o amor descrente, o esperançoso, o angustiado e o compreensivo; o amor paciente e o amor carente, e também aqueles sentimentos que muitas vezes confundimos com ele, e que ha quem defenda que também são formas de amor, como a piedade, a compaixão, o respeito, a admiração e a amizade. Como diz Crisóstomo, o amor é uma atitude. Esse é daqueles livros  para ler quando estiver desacreditada do mundo. É lindo de ver como os laços entre as pessoas se formam e compreender como só depende de nós manter ou romper esses laços.

Onde tem:

O filho de mil homens, por Valter Hugo Mãe. 208 páginas. Cosac Naify.

Amazon, Saraiva (apenas digital) e Play Livros (apenas digital).

P.s.: A edição física desse volume editado pela Cosac Naify só está disponível na Amazon, agora que a editora se desfez. Mas a editora Biblioteca Azul lançou recentemente esse romance, que está disponível para compra em diversas livrarias online e físicas.

Se Crisóstomo é um poço de sensibilidade transbordando de amor, o mesmo não posso dizer do segundo homem, narrador e personagem central de Sonhos partidos, romance de estreia do americano M.O Walsh. Eu não sei se o que me frustrou mais nesse livro foi o fato de ele não ser nadinha um thirler ou, no mínimo, uma narrativa de mistério, como eu entendi pelas resenhas das livrarias, ou se foi a personalidade absurdamente egocêntrica do narrador. É complicado, mas eu tento explicar.

A história se passa na periferia de Baton Rouge, capital da Louisiana, no fim da década de 1980, e acompanha um acontecimento terrível daquele verão: o estupro de Lindy Simpson, uma adolescente do bairro. Quem narra os fatos é um dos suspeitos da história, um adolescente da região obcecado pela vítima. Vendido assim, parece que estamos diante de um grande mistério policial mas, na verdade, Sonhos partidos é mais um uma reflexão sobre memória e culpa. Para ser justa, acho que li em algumas resenhas que, de fato, o mistério do estupro de Lindy é apenas pano de fundo para uma narrativa cujo foco é mostrar como a culpa pode moldar nossas vidas e o papel da memória nesse processo.

Mas, ainda assim, me soou egoísta demais o fato de que, com uma adolescente estuprada, o narrador não consiga pensar em nada além dele mesmo. A violência contra a jovem Lindy é relegada a segundo plano e isso me deixou irritada com o personagem, o tempo todo preocupado em se justificar, mais do que em reconhecer as falhas. Ok, estamos falando de culpa, e o que faz uma pessoa que se sente assim? De todo modo, como detestar um personagem não é detestar um livro, preciso dizer que, mesmo reconhecendo que “li errado”, por criar expectativas, a narrativa pela narrativa não agradou, achei morna, cansativa, em alguns momentos tediosa. Mas isso sou eu, e as críticas ao romance foram muito boas, na verdade. Se quiser um outra opinião, a Camila fez um mini-resenha dele no blog dela, que inclusive foi onde eu descobri essa obra.

Onde tem:

Sonhos partidos, por M. O Walsh. Tradução de Alexandre Martins. 256 páginas. Intrínseca.

Amazon, Saraiva, Submarino, Livraria Cultura e Play livros (apenas digital).

Depois de ler Sonhos partidos, me dei conta de como é difícil terminar um livro cujo personagem principal você tem birra, o que me levou a uma reflexão ~filosófica~ (muitas aspas aqui) do porque lemos o que lemos, qual o papel do livro na nossa vida e coisas do tipo. Mas isso é outra história, o fato é que resolvi começar a ler Pergunte ao pó, de John Fante, e fui apresentada a Arturo Bandini.

Quem conhece Fante deve saber que esse é seu romance de maior sucesso, o que não é pouca coisa para um cara dono de uma literatura vanguardista-beat-apaixonada que inspirou toda uma geração de escritores, inclusive Charles Bukowski. Pergunte ao pó é parte de um quarteto de livros que tem Arturo Bandini, dizem, um alter ego de Fante, como personagem principal. Bandini é um americano nos anos 1930, descendente de italianos e que sonha ser escritor, o que o leva para Los Angeles em busca dessa realização.

Sem dinheiro, deslumbrado e ansioso por viver muitas experiências para que então possa escrever seu grande livro, Bandini é o oposto do american way of life, um perfeito anti-herói, que ao mesmo tempo que tem urgência da vida, tem medo dela. Em Los Angeles, ele se apaixona pela descendente de mexicanos Camila, uma mocinha fora dos padrões, com quem cultiva uma relação bipolar, hora humilhando-a por suas origens, hora apaixonado como um adolescente. Bandini, na sua imaturidade e arrogância, é incapaz de perceber (ou admitir) que possui os mesmos atributos que rejeita em Camila. Assim, se por um lado podemos compreender como seu comportamento preconceituoso é influenciado por um contexto em que impera um profundo de desejo de se sentir parte de algo, numa terra de gente sem raízes ou história como L.A, por outro, é difícil engolir a arrogância, o deslumbre e o esnobismo desse homem.

Mas é esse mesmo um dos papéis de um anti-herói, eu penso. Provocar em nós sentimentos controversos, assim como ele também é. E com a escrita ágil  e sem apego a estilismos de John Fante, ir em frente é  fácil pois ele nos faz sentir a história e as emoções em cada nuance, mais do que tentar compreendê-las.

Onde tem:

Pergunte ao pó, por John Fante. Tradução de Roberto Muggiati. 208 páginas. José Olympio, 13a edição.

AmazonSaraiva, Play livros (apenas digital).

Agora me contem, o que vocês andam lendo?

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Leituras: Irã e Arte moderna

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Persépolis é a autobiografia em quadrinhos da ilustradora e romancista gráfica Marjane Satrapi e uma viagem sensível e bem humorada ao Irã das décadas de 1980 e 1990. O recorte acompanha a Satrapi a partir dos dez anos de idade, quando ocorre a Revolução Iraniana que mergulha seu país no conservadorismo do regime xiita, virando o mundo dela de cabeça para baixo. Nascida e criada em uma família politizada e liberal, de repente ela se vê obrigada a usar o véu e cobrir seu corpo; sua escola, francesa e laica, onde meninos e meninas estudavam juntos, é fechada pelo governo para dar lugar à educação conservadora do regime.

Essas são apenas algumas das muitas questões com que Marjane vai precisar lidar vivendo em meio a violenta revolução cultural imposta pelo novo regime e ao terror da guerra, processos que ela não enfrenta passivamente. Apesar do drama, a história encontra espaço para o humor, ainda que ele muitas vezes beire o nervosismo da alegria em tempos difíceis. É improvável não se emocionar lendo Persépolis, que ao mesmo tempo em que é choque cultural, é também identificação pura com Marjane enquanto cresce. É um convite à reflexão e a enxergar o Oriente, que pode nos parecer tão distante culturalmente, com o olhar de uma nativa.

Onde encontrar: Livraria Cultura, Saraiva, Submarino, Companhia das Letras e Amazon.

Isso é arte? é um jeito delicioso de aprender sobre arte moderna. O autor, Will Gompertz, foi editor de arte da BBC por anos e colunista nos maiores jornais ingleses, mas se engana quem pensa que por conta disso corre o risco de se deparar com uma leitura maçante. Pelo contrário. Gompertz é bastante divertido, e nem por isso menos eficiente em resenhar os últimos 150 anos de arte, desde o Impressionismo.

Com uma narrativa extremamente didática, o autor faz um registro histórico dos movimentos, obras e artistas que transformaram o mundo da arte, contextualizando cada um às características tecnológicas, sociais e políticas de seu tempo. O texto é intercalado com lâminas coloridas de algumas obras, que complementam aquela pausa para reflexão, além de um infográfico super legal com uma linha do tempo dos movimentos artísticos na forma do mapa do metrô de Londres. Uma leitura muito boa para quem gosta do tema!

Onde encontrar: Livraria Cultura, Saraiva (digital e físico), Submarino, Americanas, Amazon (digital e físico) e Play Livros (apenas digital).

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Clássicos: a importância de escolher boas traduções

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Quando lemos um clássico, mais do que apenas conhecer a história, é comum que a gente queira tentar acompanhar o autor por trás dela, entender seu estilo, compreender as entrelinhas do texto. Quando o livro é escrito na nossa língua nativa ou num outro idioma que dominamos, essa tarefa é delegada exclusivamente à nossa interpretação, até que a gente decida buscar outras fontes.

Entretanto, quando lemos um texto que foi traduzido, ganhamos mais uma camada entre o autor e o texto: o tradutor. Até pouco tempo eu nunca tinha parado para pensar na importância dos tradutores na missão de nos proporcionar uma boa leitura. Isso mudou após me deparar com volume cheio de erros, o que me fez questionar a origem do que eu estava lendo.

Pesquisando sobre o assunto, descobri o maravilhoso blog da Denise Bottman, o Não gosto de plágio. A Denise, que é tradutora, criou o blog para denunciar plágios praticados por editoras nas traduções de livros aqui no Brasil. Navegando na página dela, fiquei surpresa ao perceber como essa prática é comum em algumas editoras. Mas também entendi a importância de escolher boas traduções, não só para quem busca uma boa leitura, mas também para valorizar o trabalho desses profissionais, que não recebem 1 centavo quando seus textos são copiados.

Algumas editoras investem em produtos bonitos e atraentes, com capas maravilhosas, coleções incríveis que dá vontade de colecionar… E isso é ótimo se o conteúdo também for bom. Mas é aquela velha história de não julgar um livro pela capa, porque quando a tradução é de má qualidade ou plagiada (independente de vir em uma capa sofisticada ou numa mais simples), seu comércio só ajuda a manter uma empresa que não respeita profissionais nem leitores.

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A capa é apenas proteção para o tesouro que tem dentro <3

Além disso, quando consumimos obras plagiadas corremos no risco de não aproveitar a leitura como gostaríamos, vez que na tentativa de esconder os plágios, podem ser irresponsavelmente modificadas palavras, expressões e até trechos inteiros da tradução plagiada, o que pode resultar em mudanças de sentido, perda da qualidade do texto e outros erros grosseiros. Por isso, quando uma editora plagia uma tradução ela mostra que não se importa com a qualidade do que está publicando.

Para tentar fugir disso, a única saída é pesquisar. O blog da Denise, que citei lá em cima, é um bom local para encontrar informações sobre traduções de diversas obras no Brasil. Antes de escolher um livro também é possível procurar saber mais do tradutor, pesquisando na internet sobre ele e outras trabalhos que ele tenha feito. Conhecer a editora e a qualidade de suas publicações também é importante. Mas, acima de tudo, o mais importante é não deixar a desinformação prejudicar nossa leitura ou o trabalho deses profissionais.

 Imagens: Stoknap e Magdeleine.

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